terça-feira, 8 de novembro de 2011

Olhos com desejo de céu


Por Bruno Fonseca



"Mas o que faz o avião voar?" Apesar da conjunção adversativa do início da frase, foi assim que o diálogo se iniciou. Repentinamente e sem nada para se contrapor. A conversa, que se deu por volta de abril de 2009, aconteceu em uma van que fazia o trajeto Venda das Pedras-Praça XV e durou bem pouco. O interlocutor, um rapaz ruivo, de pele branca, espantado com a forma direta e sem rodeios como a pergunta foi feita, se sentiu um pouco intimidado. Sentimento comum em um mundo de preâmbulos e de perguntas mais práticas.

O homem que perguntava tinha olhos de um azul muito forte, o que contrastava em absoluto com o forte tom bronzeado que sua pela tinha. Mais tarde o rapaz ruivo iria perceber que esse contraste que iria aumentar a intensidade do azul que olhos daquele homem de traços claramente nordestinos tinha e diria que aquela cor servia para refletir o desejo de céu que ele tinha dentro de si.

Naquele momento, no entanto, não foi isso que percebeu. Sem poesia nenhuma dentro de si, o rapaz ruivo, preocupado com questões de ordem mais prática como quanto tempo ainda levaria para chegar no seu destino, respondeu levianamente, uma tentativa inocente de apagar os ânimos da conversa. "As asas?"

O olhar de desaprovação misturado com humildade mostrava o desapontamento da resposta dada. Diante de tamanha obviedade o nordestino responderia mais para si do que para quem tinha perguntado inicialmente: "São as turbinas, né? Queria trabalhar com isso. Essa ciência de avião".

Aquela resposta junto do sorriso bobo e infantil fez o ruivo se sentir pequeno diante de questões de ordens tão elevadas. O rapaz de olhos azuis se voltava a si mesmo, a conversa terminada. Seus olhos voltavam a se perder, maravilhados, para aquele momento de turbinas, asas e toneladas que deslizavam com tanta graça sobre aquela imensidão toda de nada.

Instantes se passariam até ele se dirigir ao motorista: "Você me deixa no JB?"

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