sábado, 11 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

No Rio pra te ver


Por Suzana Meireles


Acordara cedo na manhã cinzenta e molhada. Remoía os minutos de sono perdidos, sentada no banco daquele ônibus, que chacoalhava e fazia o espaço excessivo do assento parecer menos solitário. Havia percebido duas novas fissuras no rosto, que há semanas (anos?) carregava chumbo ao redor dos olhos. Mastigava todas as pequenas constatações matinais - essa chuva, que frio, tão cinza, e a lama nos pés, nem dá tempo de engolir um café -, por realmente não ter uma distração flutuante por ora.

E aquela cidade bonita, aquela maravilhosa, tem seus pedaços tão feios. Era ali, na Rodrigues Alves, que ela estava agora - ainda no ônibus, braços cruzados apertando o estômago e testa encostada no vidro da janela. Acabou de passar pela rodoviária e nem precisa abrir os olhos pra saber disso. Geralmente só prestava atenção no caminho quando ia pelo outro lado, apesar de já ter lido todos os provérbios(?) do Gentileza. Só hoje resolveu dar uma olhada na tristeza daquela rua, pra terminar de ruminar o mau humor.

Os olhos foram assim mesmo, despretensiosos, parar naquela parede. Aquela colorida, em que o desenho de um homem olhava pra ela, com um cartaz ao lado: "Ana, meu amor, tô no Rio pra te ver". Seguia um número de telefone. Rapidamente, sacou uma caneta e anotou na mão. Pensou em contar pros amigos numa mesa de bar. Ia ser engraçado e talvez alguém quisesse ligar pra ser a piada da noite. [E na verdade, como sua mão era bem suadeira, tudo ia ficar esquecido naqueles 10 segundos passados].

Bolsa jogada na cadeira do escritório, as horas minutavam normais. Mas a palma da mão coçava. Coçava demais. Resolveu olhar. Oito números e um hífen vermelhos e em alto-relevo olhavam de volta. Ah, alergia. Correu para o banheiro e lavou a tinta da caneta recém-adquirida por R$0,50.

Outro item recém-adquirido: uma vontade incontrolável de ler os tais números em intervalos de tempo cada vez menores.

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Mais uma ida chuvosa. Mais uma noite de minutos perdidos. Pensando nele.

Porque, na volta pra casa, ontem mesmo, já tinha decorado o tal telefone. E imaginava de onde ele vinha. Só alguém que viesse de lugar muito literário teria essa idéia: um recado no muro. Talvez viesse de algum livro da Clarice, talvez conhecesse a Macabéia ou morasse na aldeia do Alberto Caeiro. Devia ter os olhos bem escuros, e o cabelo? O cabelo ainda não dava pra imaginar. Ele não falava muito, mas falava certo. "Tô no Rio". Ah, é? "É, pra te ver". E pronto. Pra que mais?

O problema é que, depois, na manhã daquela nova ida chuvosa, passou todas as horas do caminho com medo. Só porque estava apaixonada. E não era aquele medo de estar, que a gente tem. Era medo de ser louca. É, porque quem não conhecia ele como ela - que passou a noite inteira conhecendo cada detalhe - poderia achar um absurdo se apaixonar por alguém que ainda não te conhece.

E quem disse que não? Ele está no Rio pra me ver. Só faltava eu saber o telefone.







(Pros fluminenses que atravessam a Ponte: o recado é real. É lindo. Tá numa daquelas pilastras ali de baixo, perto da Novo Rio...)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Ô, saudade!

Por Juliana Stott

Saudade de não ter que fingir, de não ter que forçar, de não ter que controlar os pensamentos, o ritmo cardíaco, os sentimentos. Saudade de transformar tudo em cores, em flores, em amores. Saudade de ouvir todas as músicas do mundo sem culpa, sem dor, sem arrependimento.

Ô, saudade, vai embora, vai logo, já tem gente te matando. Tem gente matando a minha saudade, tem gente me trazendo alívio, me trazendo cores, me trazendo sentimento.

Ô, sentimento bom, seja bem-vindo! Pode entrar, nem precisa bater na porta. Você está me tirando daquela vida do preto e branco, daquela dor sufocante, daquele mau gosto amargante da tristeza, daquele nó na garganta. Me traz borboletas na barriga, cãibra no rosto e pernas cambaleantes. Tira de mim aquela nuvem negra da insegurança e traz pra mim o principal: a felicidade.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Fim de ano deixa a vida mais corrida, todos dizem




Interrompemos a programação para comunicar que o blog mais poesia, menos jornalismo pretende retomar as suas atividades no próximo ano com o seu ritmo regular de um coração que padece.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A fórmula do amor, por Larissa Peron


SuperNova! Cosmopolita .23

A FÓRMULA DO AMOR

Da Redação

Era domingo à tarde quando nossa repórter soube que, na manhã seguinte, partiria pelos interiores da região sudeste. A missão: buscar material sobre o controle de natalidade em pequenos lugares que não possuem sinal de televisão.

Durante 77 dias, ela percorreu 52 cidadelas e ouviu 253 mulheres de diferentes idades e cognições. Obteve um registro inédito: todas sexualmente bem resolvidas e satisfeitas. O resultado? Mudou a pauta.

Nossa repórter encontrou a fórmula do amor! E a SuperNova! Cosmopolita listou aqui as principais dicas para sair da rotina e delirar. Você vai experimentar coisas incríveis que nunca ouviu falar – nem ele!

Comece marcando um encontro.

Pessoalmente. Nada de conectar o Skype no mesmo horário. A princípio, pode parecer assustador para algumas. Mas este vai ser o ponto de partida para todas as outras dicas.

Olhe nos olhos.

Durante todo o encontro – e nos seguintes. Ele pode não estar tão impecável quanto a foto do Messenger, mas vocês podem se surpreender ao esboçarem ou perceberem expressões.

Fale. E ouça.

Experimente trocar, e estar presente, ao invés de digitar e alternar as janelas de bate papo.

Contato físico.

Comece pelo abraço, de corpo inteiro – com entrosamento, é capaz de movimentar poderosas energias internas. Jung explica.

Seja espontânea.

Esqueça aquela frequência-britadeira que você finge que gosta, a página 72 do Kama Sutra e todos os malabarismos não-confortáveis ou não-aprazíveis do seu repertório. Aliás, esqueça seu repertório. Esqueça tudo. Nada de ficar pensando quando é hora de sensações. Não seja; esteja.

Para as cosmopolitas mais céticas, a SuperNova! também reuniu dados literário-científicos que confirmam a experiência da nossa redação – que testou, comprovou e aprovou!, todas as dicas. Até 1940, a maioria dos casamentos durava até que a morte os separasse, e os mais românticos acreditavam em almas gêmeas. A estes desesperançou Manoel Bandeira, ao constatar que os corpos se entendem, as almas não. Em novembro deste ano, uma pesquisa financiada pelo principado de Liechtenstein e realizada na universidade de Cambridge, durante todo o 2º semestre, revelou que naturalidade, entrosamento, presença – ainda que ausente, e troca, aproximam muito mais as pessoas do que o Facebook.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Borboletas e seus matizes alcançam o vôo da liberdade


As mãos que deram liberdade às borboletas são de C.L., 16 anos, moradora do interior de Minas Gerais. Recém-chegada aos centros urbanos cariocas, a estudante foi surpreendida ao encontrar os insetos presos em um pote de vidro, mas ainda com vida. Não tardou em soltá-los.

C.L. sempre quis ser uma borboleta. Nunca as viu como insetos. Insetos para ela são bichinhos nojentos e sem beleza, coisa bem distante da realidade de suas amigas borboletas. Quando criança brincava de voar pulando de uma cama à outra, itercalando as fantasias de crepom lilás e furta-cor. Pensava que assim teria liberdade eterna e cresceu acreditando nisto, apesar de hoje não mais se fantasiar. "Só por dentro, onde estão todas as cores e verdadeira liberdade", ela diz.

Ao se deparar com as suas companheiras envidraçadas sentiu-se tonta, sufocada e confusa. Por que alguém faria tamanha maldade com seres tão singelos da natureza? Deduziu, com sua esperteza de menina-moça, que nos grandes centros não deveria ser tão fácil encontrá-las e que por isto alguém as teria prendido. Para observá-las com liberdade, eternamente. "Tão mais difícil para o povo da cidade deve ser criar asas de crepom lilás e furta-cor", concluiu a moça.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Sintam vontade de fazer muita coisa, dizem Bertold Brencht e Chico Science

poema de Bertold Brencht enviado por Beatriz Rodrigues

Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso,
mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.

domingo, 27 de novembro de 2011

Chuva fina acalma o coração na cidade


O dia amanheceu chuvoso na cidade. O clima frio e cinzento destaca o tom verde-escuro da paisagem vista pela janela da casa da avó, que é sua também.

As nuvens parecem chorar pelos acúmulos. De dor, de amor, sofrimentos e alegrias. Domingo é tempo de recomeço, boa hora para uma limpeza no ar e os meteorologistas recomendam: respire, apenas respire e deixe molhar. É esta a condição para o bem viver.

Desta forma, os especialistas presumem uma semana tranquila, onde os carros dormem e os pássaros são observados no céu.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Tem algo diferente na praça


por Vanessa Onofre para Sinfônica Ambulante

Gente, queria fazer um relato aqui, rapidinho. Primeiro, obviamente, parabenizá-los pela união maravilhosa que vocês fazem: de bons artistas, de boa gente, de boa música. Segundo, quero alertá-los para algo que, talvez, seja o mais bonito dessa união: o público.

Eu só conhecia a sinfônica de nome (e muito bem comentado, aliás), mas ontem foi a primeira vez que os vi tocando e, na apresentação, reparei algo que, pra mim, foi tão emocionante quanto a apresentação em si: pessoas de todas as idades estavam ali em volta de vocês. Eram crianças com olhares atentos, fotografando, dançando cada uma a sua maneira. Pais preocupados com o volume e ao mesmo tempo erguendo seus bebês para que esses pudessem, ainda no seu "entendimento desentendido" de mundo, curtir a música. Senhoras cansadas, senhoras animadas, senhoras de cabelos de todas as cores. Essas eram as que deviam estar lembrando seus saudosos bailes de outras épocas, ou apenas gostando da música.

Um menino particularmente me chamou a atenção: estava ali numa cadeira de rodas e com um olhar distante e perdido. Algumas pessoas provavelmente estavam pensando que ele não estava entendendo, ou que talvez levá-lo ali fosse uma recreação como outra qualquer. Mas ao fim de "The lion sleeps tonight" esse mesmo menino aplaudiu com tanta felicidade que me fez feliz também. Sabe-se lá o que ele estava pensando, sabe-se lá o que todas aquelas pessoas estavam pensando ou sentindo ao final cada música. Algumas sendo levadas a lugares distantes, outras apenas mexendo os pés e curtindo o momento. As crianças, essas eu tenho certeza de que aproveitaram muito e saíram ganhando talvez mais do que todos os outros: quando é que, numa cidade grande como Niterói, tão cheia dos seus urbanismos, imaginava-se um domingo tão musical?

Me alegrei muito com as músicas, com o ritmo, com os sorrisos felizes de todos os integrantes do bloco. Mas esse conjunto: a música, os músicos, o domingo, o campo e o público, ah, isso sim me fez sair de lá com a sensação de que o mundo pode sim ser um lugar muito mais agradável e feliz.


Niterói, 20 de novembro de 2011.