
por Suzana Meireles
Queria ser o sinal de trânsito: resolver quando as pessoas podem ir e quanto tempo têm que ficar. Decidir quando é pra parar ou continuar. Quando é pra esperar, pra acelerar. E ser assim, simplesmente inteligível de vermelho e verde, pisca pra cima, pisca pra baixo, e todo mundo entende. Sem entrelinhas de ruído, sem silêncio incompreensivo.
Não que eu queira mandar o tempo todo em carros, velhinhos e bicicletas - ou você - mas quem iria negar ao sinal o direito de se envaidecer pensando: "Ah, se eu faltar... esse mundo vira um caos. A vida para e ninguém mais consegue seguir". É dessas coisas que enche a cabeça do sujeito. Talvez por isso ele suba nos fios para longe do encontro das esquinas sem falar com ninguém.
Desculpe lá a intromissão, mas é muito solitária mesmo a sua vida, seu semáforo (já posso te chamar de sinal?). Esse reino de gente comandada pela sua vontade não te vê e só te olha, nem pensa em te escutar. Não importa o quão alto e brilhante, é parte do cenário, mescla cinza de paisagem. Triste mesmo a sua vida de gritar em silêncio todos os dias, enquanto tudo no mundo passa pra não voltar. E, se volta, é pra não ficar.
Não foi a intenção julgar você, de novo, desculpe. Pensando bem, sinaleiro, o senhor é o que está mais certo por aqui: entendeu que a maior parte de tudo é passagem. Isso é sabedoria do bom observador silente que aprende com os caminhos dos outros o que não pôde experimentar.
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